Estrela Cadente

 :: Home. :: Flood. :: Fanfics.

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Estrela Cadente

Mensagem por GM Jure em Seg 28 Jun 2010 - 13:29

ESTRELA CADENTE


Capítulo Piloto

"Sob o céu estrelado, nascem grandes heróis.
A estrela-guia de nossas vidas está sempre vigilante
E quando nuvens insistem em nos ocultar a verdade
Seu maior emissário nos observa de perto.

Aos de mente tranquila e coração passional
A esperança nunca será perdida.
Sob a bênção do zodíaco jazera o medo
A desavença e a iniquidade dos arrogantes e pessimistas.

E não tema jamais, pois os astros nunca abandonam
Os perspicazes em suas batalhas diárias.
Os clareiam a visão e apontam seus caminhos celestes
E lhes imbuem de sua energia cósmica e eterna.

Sob o céu estrelado, nascem os destemidos.
Eles, e somente eles são capazes de ir além
De servirem aos propósitos superiores sem questionar e sem falhar.
São eles que serão nossas estrelas-guia em terra.
Ah, quantos segredos mais estarão perdidos nas estrelas!
Revelai e deixei cair sobre nós a imensidão de nossa insignificância.
Guiai-nos ao firmamento, inflame nossas almas
E então caberá somente a nós, junto a teus heróis
Descobrir o nosso próprio significado."


O suor gotejava de seu rosto. Seu corpo fatigado e dolorido mantinha-se firme. A respiração ofegante, o coração em ritmo acelerado. O corpo pedia, clamava, implorava por descanso e não era apenas daquele instante. Não descansava haviam três meses. Três meses que se arrastaram como anos, quase literalmente.

Jure Aster, o rapaz indicado por seu mestre Wang Jinrei para enfrentar o Fukai, havia chegado ao Templo do Norte quase que por acaso. Foi após ter sido encurralado por soldados no Pântano Sombrio enquanto conversava com Mononokes que subitamente acordou no meio do Deserto Vermelho. Correu pela sobrevivência e finalmente encontrou o Templo Norte, que acabara de sofrer um ataque mercenário. Lee Pai Long, o Grão-mestre do Templo Norte, notou o imenso potencial daquele jovem, assim como sua insegurança sobre suas habilidades e resolveu treiná-lo pessoalmente para que pudesse cumprir seus objetivos com êxito.

E é exatamente aqui onde começamos. Em mais um dia de treinamento intensivo, Lee Pai Long resolve teriam mais uma luta, para que ele pudesse avaliar o quanto Jure havia aprendido naquela semana. Durante os três meses em que estivera no templo, fora assim. Apenas cinco horas de sono, uma pausa para comer ao meio dia e outra para meditar ao fim da tarde. No resto do dia Jure era submetido aos treinamentos físicos e ensinamentos teórico-filosóficos mais extenuantes e complicados imagináveis por um ser. E para piorar, treinavam em um local secreto do Templo, uma câmara hiperbólica. Um lugar onde o tempo e o espaço são nulos. O esforço quase insuportável. Mas Jure sabia o quão importante era passar por isso.

-- Aguente firme Jure. Não sairemos daqui hoje enquanto você não for capaz de segurar meu golpe com a nova defesa que eu lhe ensinei. -- Esbravejou de uma maneira incrivelmente calma, Lee Pai Long. -- Prepare-se, caso contrário ficará om horas de sono a menos.

"Isso...é insano...Já fazem horas que estou tentando...mas é simplesmente impossível. Faço tudo correto: o movimento de alavanca, a força necessária, a concentração...TUDO...mas meu corpo simplesmente não aguenta mais...se ele ao menos se movesse mais devagar..."

Um piscar de olhos e Lee já estava próximo, com um golpe direcionado para o rosto do monge.

"É AGORA!"

Inutilmente elevou seu braço para conter o golpe do mestre. Lee apenas continuou o golpe, ignorando a defesa de Jure e acertando em cheio seu nariz.

Sem reação, Jure toma para trás. Seu nariz sangra copiosamente e ele ainda sentia uma dor lancinante no maxilar.

-- Levante-se Jure. -- Disse Lee calmamente.

"Não é possível...eu fiz tudo certo!" Tentava se levantar, mas o corpo não respondia direito. "Droga...essa dor..."

-- Falei para se levantar Jure. AGORA! -- Apesar do tom imposto na última palavra, Lee não perdia a calma. -- Isso é ridículo. Não estou pedindo nada demais, apesar que use uma técnica defensiva em meu golpe, é pedir demais? --

-- Não, mestre. -- A resposta de Jure era carregada de um ódio tão sutil que soava como indiferença.

-- Não quero que fale absolutamente nada. Concentre-se em meus golpes e não em desperdiçar minha preciosa audição com sua insolência. --

"Claro...mestre" Finalmente conseguira se levantar. Limpou o sangue que escorria do nariz e assumiu sua postura novamente.

"Isso tem que acabar logo. Não vou aguentar mais tempo."

-- Vou repetir pela última vez. Você tem que aprender a sentir seu oponente, e não apenas ver seus golpes. Não se trata de ser o mais veloz, o mais forte ou o mais inteligente somente. É necessário ser o mais consciente de tudo à sua volta, especialmente o seu oponente. -- Lee assume uma postura de ataque. -- Feche os olhos Jure. Só abra seus olhos quando tiver a certeza de que me bloqueou. Se abrir seus olhos antes disso, quebrarei suas duas pernas. --

Por sorte, Jure já se acostumara a esse tipo de tratamento e já nem se importava mais. Com tanta dor e cansaço, quem vai se importar com uma besteira dessas?

"Sinto em informar que sua diversão acaba agora mestre...estou de saco cheio disso...além de estar muito cansado."

Jure fechou os olhos e respirou fundo. "Sentir o oponente...se era só escutar então já estou fazendo isso a muito tempo..."

Como se tivesse lido a mente de Jure, Lee respondeu a aquela questão fundamental do monge. -- Sentir não se trata somente de ver ou ouvir o seu oponente Jure. É sentir sua respiração, seus batimentos cardíacos, a contração de seus músculos. Até para onde seu olhar está direcionado, mesmo que use uma máscara, como eu. É ser o seu oponente, e usá-lo contra ele próprio. Chega de conversa. -- Novamente partiu para cima de Jure.

Absorto tentando "digerir" os ensinamentos de Lee, Jure apenas pensava em como iria chegar a tal feito. Só conseguia sentir seu próprio corpo urrando, prestes a entregar os pontos ali e agora. Naquela altura, nem mesmo sabia se estava pensando direito. Até suas ideias estavam embaralhadas.

Esse devaneio só teve fim quando de repente, os instintos de Jure conseguiram falar mais alto do que qualquer dor. Por instantes, que provavelmente não passaram de ínfimas frações de segundo, Jure percebeu que Lee estava próximo. Seu ímpeto o levou a abrir os olhos sem querer e quando o fez, sentiu duas grandes dores: uma no abdômen, proveniente do golpe desferido por Lee e que deveria ser defendido, e outra nas pernas.

Assim que notou que Jure abriu os olhos, Lee simplesmente emendou um chute circular nas pernas de Jure, fazendo-o cair novamente. A dor que sentia não era meramente do impacto. Jure sentiu seus ossos racharem e por pouco não quebram. Oficialmente, estava a um passo de apagar.

-- Eu disse para NÃO abrir os olhos até ter defendido o golpe. Tem sorte de estar com as pernas intactas. Agora levante-se. --
Jure conteve um grito de dor. Agora estava com muita raiva. Raiva, ódio, rancor e o que mais pudesse sentir de ruim naquele instante. Se recompôs e novamente limpou um pouco de sangue. Lançou um olhar ferino a Lee antes de fechar os olhos e respirar fundo.

-- Prepare-se. -- Mal falou e logo avançou. Dessa vez era uma voadora, e maldosamente estava direcionada para o esterno de Jure.

"Calma...só mais um pouco..."
Tudun
Tudun
Tudun
Era um compasso diferente do seu. Era o compasso das batidas de Lee. Cada vez mais perto. Tudo estava em câmera lenta. E no exato momento em que o pé de Lee ia atingir o peito de Jure, este usou sua mão para bloquear o golpe.

Era um golpe poderoso e feito com carga quase total. Por momentos mais ínfimos do que aquelas quase desprezíveis frações de segundo, o monge quase cedeu ao golpe. Quase.

Com uma força interior avassaladora, Jure consegue desviar milimetricamente o percurso da voadora, além de absorver boa parte do impacto.

"CONSEGUI!"

Era seu momento de vitória. Havia conseguido utilizar a técnica com êxito por fim. Abriu os olhos triunfante. Sua euforia, no entanto, lhe custou prever uma reação de Lee.

Ainda em pleno ar, o mestre girou e atacou Jure no lado da cabeça, usando o tornozelo. Mais uma vez Jure ia ao chão. Dessa vez quase desmaiou.

Assim que Lee tocou os pés no chão, encarou o corpo de Jure quase inerte.

-- Levante-se. -- Disse com sua irritante calma.
-- Levante-se, Jure. -- Novamente sem sucesso.
-- Vou falar pela última vez, quero você se levante! -- Pela primeira vez em três meses, Lee tivera que repetir uma ordem três vezes. Isso o deixava extremamente irritado.

O monge estava distante. Imagens de seus companheiros no Templo Sul, dos companheiros de estrada, de sua infância passavam cada uma em um flash, sem muito enfoque. Apenas quando passaram lentamente imagens de Pejite em chamas e do Fukai que "voltou ao mundo".
"Não tenho escolha...tenho que..." Novamente utilizando-se da mesa força misteriosa e milagrosa que o fizera defender o golpe de Lee, Jure começou a se levantar devagar. "Eu...sou....Jure....ASTER! E NADA VAI ME DETER!"

-- Impressionante. -- Balbuciou Lee.

Jure se protou de pé em frente a Lee para ouvir suas palavras. Seus cabelos cobriam seu rosto, tornando impossível ver sua expressão mórbida.

-- Parabéns, você conseguiu fazer um pouco abaixo do mínimo. Não posso esperar muito mais de você nessas condições. Espero que tenha aprendido que não se pode comemorar uma vitória antes da hora. Ou caso contrário você será totalmente surpreendido. -- Novamente era como se Lee tivesse lido sua mente. -- Vá dormir. Amanhã recomeçaremos cedo.

Jure cumprimentou seu Sifu e saiu caminhando. Não parou nem para tomar um banho. Apenas foi para sua cama em um dos alojamentos do Templo e dormiu em um sono pesado.

Lee estava satisfeito.
-- Esse rapaz...foi capaz até mesmo de defender minha voadora. Mesmo completamente esgotado, ele consegue se levantar. Acho que está na hora de aumentar a carga de seu treinamento. Esse garoto tem mais potencial do que eu imaginava. --

----------x----------x----------x----------x----------x----------x----------x----------x----------x----------x----------x----------

Enquanto isso, no Vale dos Ventos.

-- E então, conseguiram alguma pista soldado?
-- Não senhor. Não conseguimos encontrar nenhuma testemunha além do mendigo bêbado que a encontrou jogada aqui. Não há vestígios de pegada ou qualquer outra pista na área senhor.
-- Certo...faça o favor de chamar a equipe de remoção. -- Fez um gesto e dispensou o soldado. -- Sempre existem pistas soldado...sempre...

O sargento-investigador Ashlocke parecia intrigado. Nunca havia presenciado um crime como este. A vítima estava jogada nos fundos de um beco imundo, completamente despida e com várias aberturas pelo corpo. Todos os órgãos internos haviam sido retirados, inclusive o pênis, logo tratava-se de alguém do sexo masculino. Não era possível identificar, visto que a própria face havia sido arrancada também. Não havia mais nada em volta, além do sangue da própria vítima que formava uma poça à frente.

Ashlocke observou a cena por um breve período, até notar algo curioso.

"As orelhas...são pontiagudas." aproximou-se e pode examinar melhor. "Não é um elfo. É mais robusto e a orelha não é tão pontuda. Temos um meio-elfo então. Interessante."

No segundo seguinte, Ashlocke sente uma mão em seu ombro. Era uma mão pesada e gorda que o chamava.

-- Então Ashlocke, descobriu alguma coisa? -- A voz efadonha era de Crowditch, Capitão do exército do Vale dos Ventos.
-- Era um meio-elfo. E pelo visto não era uma pessoa muito querida.
Crowditch se agachou. -- Arrancaram até o "brinquedinho" dele. Será que foi a mulher?
-- Improvável. Teriam ouvido gritos histéricos na vizinhança. -- Ambos deram uma leve risada. -- Pode ficar tranquilo capitão, estava entediado de ficar à toa. Vou abraçar esse caso de forma plena.
-- Me parece complicado. Tem certeza que não quer pedir uma ajuda? Lynch poderia ajudá-lo, é muito competente.
-- Muito obrigado capitão, mas acho que não será preciso. Sou plenamente capaz de dar conta desse caso e, além do mais, o senhor --
-- Por favor...não me chame de senhor. --
-- Você sabe muito bem que não tenho uma boa relação com o tenente Lynch.
-- Ai ai...essas suas vaidades irão matá-los, sabia?
-- Não é vaidade. É uma questão de honra.
-- Tudo bem Ashlocke, se você prefere assim, faremos do seu jeito. Apenas não saia da linha para eu não ter que intervir, ok?
-- Positivo capitão.
-- Boa sorte e...juízo. Não me decepcione. -- Crowditch foi em direção à saída do beco.

Ashlocke continuou a observar o local até que seu solhos foram parar na poça de sangue. Para sua surpresa, havia encontrado algo.

KKK

"KKK...K...K......" Não conseguia acreditar no que seus olhos viam. "Essa não!" Infelizmente, tudo pareceu fazer um mínimo de sentido.

-- Capitão, rápido, venha para cá. Você não vai acreditar no que seus olhos irão ver, mas também não se surpreenderá. -- Mostrou as letras na poça.

A reação de Crowditch, para os que o conhecia, fora incrivelmente previsivel:
-- Put...


Última edição por GM Jure em Qua 23 Fev 2011 - 13:28, editado 2 vez(es)

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Estrela Cadente

Mensagem por GM Jure em Qua 23 Fev 2011 - 13:16

UAAAAAU campanha "esquecida" desde Junho...eu tive problemas diversos que me impediram de continuar, mas dessa vez eu vou tentar manter tanto essa quanto a Máter...

Capítulo 1 - O incompreendido e o Incompreensível


Crowditch e Ashlocke ficaram ali, parados admirando as letras que pareciam exercer sobre a dupla um macabro efeito hipnótico. O transe só foi quebrado com a presença de um soldado raso.

-- Capitão. -- Pensou duas vezes antes de importunar o corpulento oficial. -- Capitão...temos um chamado urgente vindo do Banco um mensageiro acaba de informar que... --

Crowditch fez um gesto para que se calasse. Ele então finalmente conseguiu tirar os olhos das letras e se dirigiu a seu subordinado, olhando para algum ponto fixo no chão. Estava realmente desnorteado. -- Vá preparando a minha carruagem, praça*, rápido.-- Com uma continência, o soldado foi correndo em direção à carruagem do Capitão.

-- Essa informação jamais sairá daqui está me entendendo Gabriel? Jamais. -- Crowditch se levanta e vira. Ashlocke acompanha seu superior e faz a menção de dizer algo, mas é abruptamente interrompido. -- Amanhã, quero você na minha sala para discutirmos este assunto. Amanhã. Agora vá para casa e durma. Precisará de uma boa noite de sono.

Mal termina de falar e já sai caminhando a passos largos e firmes.

"Eu nunca vi o Capitão assim...é óbvio que esses três k's juntos nao são boa coisa...mas quem sabe ele apenas não se precipitou? afinal pode ser apenas alguém querendo brincar conosco."

Os pensamentos de Ashlocke foram cortados pela chegada da equipe de remoção. Uma dupla de fotógrafos** com várias folhas de lona começam a desenhar a cena sob vários ângulos. Outros soldados-removedores realizam cuidadosa coleta de resíduos e remoção do corpo propriamente dita.

"Já está mais do que na hora de eu ir." Deixou o beco e foi à procura de seu cavalo.

Gabriel Ashlocke, 25 anos, Primeiro Sargento da Divisão de Inteligência e Investigação do Exército do Vale dos Ventos.
Perito em farejar o menor detalhe em uma cena, discurso, expressão, ou qualquer outra coisa que possa ser captada pelos seus sentidos.
É o queridinho do Capitão William "Bill, the Buffalo" Crowditch dentro da instituição, onde também mantém relações amistosas com Sylvester "SpySly" Grunt e Peter Duncan, ambos membros de certo renome dentro da mesma divisão onde pertence. Essa amizade vem desde os tempos de recruta, quando formavam um grupamento de 4 soldados junto de Charles Lynch, atual arque rival de Gabriel dentro do exército e também na vida.
Devido a uma traição de Lynch, Ashlocke, Grunt e Duncan ficaram presos durante meses e de quebra, após seu plano orquestrado de forma magistral, galgou patentes de forma rápida. Somente Gabriel sabe da traição no entanto, e seu código militar o impede de delatar Lynch.
Ashlocke difere muito dos outros militares, preferindo a todo custo evitar confrontos, eis o porque de estar na divisão de inteligência e não de infantaria.Também não gosta de esbanjar seus talentos sem motivo, tampouco seu prestígio com o influente capitão Crowditch - diversas vezes já recebera uma proposta de "beneficiamento" mas prefere ser reconhecido pelo seu esforço. Também jamais larga seu cavalo de confiança, Veloz, para trás preferindo-o até mesmo do que o desfrutar de uma carruagem, carroça ou qualquer coisa que o valha. Fora um presente de seu pai.
-- Tchitchi -- Fez um barulho com a boca para chamar a atenção de Veloz. -- Estou aqui garoto. -- Ajeitou a sela e retirou o laço que o prendia o cavalo branco de crinas negras a uma árvore. -- Tudo bem amigão? pois vamos para casa! -- Gabriel montou em veloz e logo em seguida deu a ordem de partida.

Durante o caminho, inevitavelmente seus pensamentos ficaram imersos nas imagens e reações encontradas ali no beco. O significado de cada ínfimo detalhe, como era a especialidade de Ashlocke, estava tão próximo...mas ao mesmo tempo tão distante.

"Um assassinato brutal aparentemente sem pistas...KKK...Crowditch transtornado...por que eu consigo visualizar o quebra-cabeças mas não consigo encaixar nenhuma peça sequer? Vejamos as possibilidades: A Kubis Kublai Kahn já está extinta há anos...Crowditch devia ter a minha idade ou menos nessa época...ele mesmo deve ter combatido alguns lacaios dessa organização acredito eu...isso é, se suas histórias forem verídicas e os fatos, coerentes."

Pequena pausa para reorganizar pensamentos.

"Certo, então digamos que algum maníaco lunático esteja usando o nome da KKK para provocar terror gratuito...por que isso inspiraria tanto temor no Capitão? Hum...quem sabe eu deva checar alguns arquivos em busca de informações e depois..."

Péssima a mania de interromper pensamentos. O leve trotar do cavalo havia cessado em uma encruzilhada estranhamente movimentada para aquela hora da noite. Ashlocke nem pôde fazer muita coisa...começara a ser assediado por uma "mulher da vida" com um perfume incrivelmente forte. Nauseante eu diria. Seja lá que essência for essa, com certeza quer esconder algum outro cheiro um tanto azedo...

-- Érr...não, muito obrigado moça, não preciso dos seus serviços...-- O sempre educado Ashlocke tenta afastar a mulher para longe de seu cavalo impecavelmente limpo ainda naquela semana. -- Moça, por favor eu não...eu....moça...VÁ EMBORA E ME DEIXA EM PAZ, EU SOU UM OFICIAL DO EXÉRCITO, NÃO ESTÁ PERCEBENDO?

Um incomum rompante de fúria. Ashlocke tinha a paciência de um monge, inerente a qualquer um que se proponha a esmiuçar detalhes como em seu trabalho. A paciência é grande, porém finita. Ela estava atrapalhando seu raciocínio, e por mais que isso pareça prepotente, não podia perder seu raciocínio agora.

A moça olhou ferina para Ashlocke e logo uma pequena multidão de outras prostitutas e leões-de-chácara se aglomerava atrás dela.

-- Ah, vá se f...

Não ouviu e nem precisou ouvir o restante da frase...já estava longe dali em um trote acelerado...

"Mas é óbvio que essa intimidação não ia pegar...no que estava pensando? sua insígnia de investigador até lhe dava um ar de oficial, mas não passava de um sargento...um praça graduado. 'Aquele povo' tem problemas demais com as autoridades...conhecem uma insígnia e o porte de um oficial de verdade de longe...ao menos Veloz está limpo."

O resto do caminho foi marcado pela monotonia dos caminhos escuros da cidade e dos pensamentos não muito mais iluminados de Ashlocke. Só parou novamente quando chegou à porta de sua casa, em um bairro residencial e afastado do centro agitado da cidade. Havia uma janela acessa...alguém estava o esperando...e ele sabia quem era...

Cuidadosamente levou Veloz ao estábulo e quando abriu a porta de casa, lá estava ela, linda como sempre.

-- Você demorou, fiquei preocupada. -- Sua voz era como uma suave melodia de uma flauta habilmente tocada por um bardo experiente.

-- Desculpe...foi um chamado de última hora. -- Tomou -a em seus braços e lhe deu um beijo ardente e caloroso. -- Já não via a hora de voltar pra casa...sabe Janis, seu tio hoje estava meio esquisito...nunca o vi daquele jeito e...-- Também nunca tinha visto aquele olhar naqueles olhos tão belos, brilhantes como uma esmeralda e profundos como uma jade. Ficou sem jeito.

Mas é claro que não posso deixar de citar outra parte importante da vida de Gabriel Ashlocke: Janis Crowditch-Griffiths, sobrinha do capitão Crowditch e o amor da vida de sua vida.

-- Que cheiro é esse Gab? Andou se esfregando com alguma vagabunda é? --

-- Cheiro mas que? -- À terrível verdade veio à tona...quer dizer...ao nariz de Ashlocke. "Droga, aquela...mulher deixou aquele maldito perfume barato em mim...mas como? aliás, como é que eu vou explicar?" Pelo menos o Veloz estava limpo. -- Isso não é nada do que você deve estar pensando Janis...sabe muito bem que essas...profissionais do sexo se metem em muitas enrascadas onde devemos...

-- Então quer dizer que ela era PROFISSIONAL Gab? -- Estava furiosa. Nunca deixem uma mulher furiosa, objetos costumam voar subitamente...na SUA direção.

"Droga, já não basta resolver esse quebra-cabeça...ainda tenho que resolver esses pobleminhas conjugais...é hoje...é hoje..."

-- Como é Gab, não vai falar nada?--

"Claro que vou...'Ora amor, você não se lembra daqueles casos de estupro seguido de assassinato entre as prostitutas da zona leste? pois então..."

Janis de repente parou de olhar com certo ódio.

"Tudo"

Ela então desata a gargalhar.

"Faz "

-- Relaxa Gab, eu sei que você teve um dia estressante...foi só uma pegadinha de mal gosto...me desculpa?

"SENTIDO!"

-- Gab, você está bem? --

"Mas é claro...isso só pode haver uma conexão..o Modus Operandi*** é semelhante...vejamos: três assassinatos brutais, desmembramentos, ainda que mais sutis, órgãos arrancados, em especial os úteros...sem pistas...em becos...como foi que eu não liguei uma coisa a outra? tão óbvio....ah claro isso já faz tempo, eu mal havia entrado na divisão e...DROGA!"

-- Gab, você quer parar com essa cara, eu estou ficando realmente assustada! --

-- Janis, vá dormir. Tome um daqueles elixires que o alquimista lhe deu e vá dormir AGORA, preciso falar com seu tio urgentemente. -- Pegou seu casaco de volta e foi na direção do estábulo.

-- Você pirou de vez é Gab? Como é que você sai assim no meio da noite sem dar a menor explicação e... -- Ashlocke deu-lhe um beijo de "calaboca", montou no Veloz e foi embora. --Gab...volte logo, por favor. -- Suspirou Janis ao ver seu amado partir.

"O Banco, ele está no Banco...preciso chegar lá RÁPIDO" -- Vamos veloz, não temos tempo a perder! -- Gritou Ashlocke em meio ao Galope. "Tomara que Crowditch ainda esteja lá!"

Em poucos minutos, lá estava Ashlocke no centro da cidade novamente, rasgando as ruas com seu cavalo, Veloz. Sua determinação, assim como a maioria dos pensamento, falas ou ações deste capítulo (e muito provavelmente do resto da história) fora interrompida por uma fração de segundos.

Ashlocke claramente havia percebido uma movimentação estranha em um beco. Estava próximo ao Banco, o que só reforçava a sua intuição.

Com uma manobra ágil, deu meia volta com Veloz em grande velocidade, e parou em frente ao beco.

"NO ATO!"

Dois homens, um estava em trajes escuros e de costas, claramente ameaçando o outro, franzino e coagido contra a parede do beco.

-- PARADO EM NOME DA LEI! -- "Sempre quis dizer isso..eu acho." No fundo, ele nunca quis precisar dizer isso, não de verdade. Não naquela situação.

*Essa é a denominação de qualquer membro das forças armadas sem qualquer tipo de graduação, ou seja, um soldado raso.
**Vale lembrar que não é uma fotografia real, e sim um desenho muito bem feito.
***http://pt.wikipedia.org/wiki/Modus_operandi

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Estrela Cadente

Mensagem por GM Jure em Sex 8 Jul 2011 - 8:55

Capítulo 1, parte 2 - O Incompreendido e o Incompreensível
Um quarto escuro. Pálidos raios de luar esgueiram por entre as folhas dos pinheiros até ultrapassar evanescentes a janela. No chão uma silhueta trêmula. Era Jure Aster, aproveitando o que dava de seu merecido descanso após um dia de treino exaustivo.

Desde que chegara ao templo norte da Ordem dos Lutadores das Estrelas, Jure tem sido treinado pessoalmente pelo Grão-Monge, Mestre Lee Pai Long. Era um treinamento como nunca havia recebido em toda a sua vida. Jure sentia que podia simplesmente morrer acidentalmente em alguma das intensas sessões diárias. Mas não reclamava. Assim que pôs os pés na Caverna Cristalina, sabia que sua vida mudaria dramaticamente.

Meses atrás...

-- Mestre, trago boas novas. -- disse Lucius logo após cumprimentar formalmente seu sifu.

-- Se veio falar dos mercenários que pensaram em nos atacar, não perca seu tempo, pois não fez mais do que a sua obrigação. -- disse o velho, quase que com um resmungo.

-- Os agressores foram devidamente rechaçados, senhor, mas não é sobre eles que vim lhe falar. É sobre este jovem monge que veio comigo. -- Lucius deu um passo ao lado, me revelando para seu mestre.

Não era a primeira vez que via o Grão-Mestre Lee Pai Long. Já tive a oportunidade de conhecê-lo anos atrás, quando ainda era um jovem iniciado. Lee veio tratar de assuntos não esclarecidos com meu Mestre, o Grão-Mestre Wang Jinrei. Alguns anos mais tarde ele voltou para iniciar uma série de treinamentos especiais com a minha turma. Uma verdadeira honra.

Lee me olhou por apenas um único segundo...por mais que usasse uma máscara, a sensação de estar sendo observado era gritante...-- Hum. Jure Aster. -- e tornou a fechar seus olhos.

-- Eu aguardarei do lado de fora. -- disse Lucius -- Nosso mestre tem algo a falar contigo. -- e foi em direção à entrada da caverna. Eu estava um tanto confuso.

-- O senhor ainda se lembra de mim? mas c...-- Finalmente me pus a falar quando fui interrompido.

-- Quieto, eu não pedi que falasse qualquer coisa. -- Lee Pai Long não era conhecido pela sua simpatia e carisma contagiante...-- Além disso, é claro que eu lembro de você. Não lhe devo satisfações, mas eu aguardo pelo dia em que poderia enfim tê-lo sob a minha tutela. --

Lee Pai Long, querendo ser o meu tutor? isso soava muito irreal. Pai Long jamais treinava monges inexperientes feito eu. Diferente do Mestre Jinrei, Lee preferia delegar esta função para os outros monges graduados. Para ter acesso ao seu treinamento, era necessário atingir estados bem elevados de corpo, mente e espírito.

Mas o discurso de Lee não parava por ali. -- Vou lhe dar uma chance de escolher, apenas uma. Ou você se torna meu pupilo pessoal, ou assim que estiver descansado de sua viagem, será cordialmente convidado a se retirar das dependências do Templo Norte. --

-- Desculpe senhor, mas o senhor não pode me expulsar de um templo da Ord...--

-- Na próxima vez em que ousar levantar a sua voz contra mim, arrancarei sua língua para lhe ensinar a lição de que temos dois ouvidos para escutar e apenas uma boca para falar. --Era um tanto intimidador conversar com alguém que mais se parecia uma estátua.

-- Este aqui é o Templo Norte, e quem dita as regras por aqui sou eu. Da mesma forma que Jinrei lhe pôs para fora em "missão", eu lhe colocarei com muito prazer para "buscar novos horizontes" fora das paredes desta construção. --

Houve um silêncio, e eu entendi logo que ele queria minha resposta. Confesso que titubeei um único momento. Para minha sorte, foi um momento ínfimo demais para que os sentidos apuradíssimos do monge detectasse.

-- Eu aceito. --

-- Começamos hoje, me encontre na cachoeira assim que arranjar uma acomodação. -- Lucius apareceu na caverna novamente. -- Jinrei fez um bom trabalho ao construir o homem. Eu agora construirei o guerreiro. -- Sua máscara parecia agora a assumir feições que não tinha. -- Não há como voltar atrás Aster.

Eu saí daquela caverna com um gelo na espinha. Só haviam duas possibilidades: sobreviver ou morrer. Até hoje não sei ao certo se estou vivo.


De volta ao quarto escuro.

A tremedeira não cessa. Já não são os espasmos de cansaço, não é o frio, tampouco uma descarga elétrica o que a causa. É o medo. Jure tem mais um de seus já rotineiros pesadelos.

SEUS PAIS SÃO RENEGADOS

dor, ad infinitum

ASLEN ARÂNTIS TIÊRII AVALON AMATERASU KALYSTA

sofrimento, ad nauseam

PEJITE EM CHAMAS

...morte...morte...morte...

INSETOS, CORRA OS INSETOS VÊM AI

dor, sofrimento, morte, angustia sem fim dor, sofrimento, morte, angustia sem fim dor, sofrimento, morte, angustia sem fim dor, sofrimento, morte, angustia sem fim dor, sofrimento, morte, angustia sem fim

olheparadentroevocemesmojureseumontedelixoescoriadouniversovocenaomerecepisarnomesmochaoqueosratseasbaratasnaovequeomundoorejeitanaosoomundocomotodosasuavoltamorraeouniversoestaramaisfelizmorraeninguemseimportarachoreetudooquevaiconseguiredesperdiçarpreciosaaguanaoadiantalutarpoispormaisquevocesejacapazdeerguerseuspunhoscontraumoponentejamaisseracapazdeerguerumpunhocontrasimesmoseucovardeenfrenteasconsequenciasdavidaopesodomundoovaziodouniversonaohadeusnaohacrençanaohaesperançanaohasernaohasentidoourazaodevivernaohadeusnaohacrençanaohaesperançanaohasernaohasentidoourazaodevivernaohadeusnaohacrençanaohaesperançanaohasernaohasentidoourazaodevivernaohadeusnaohacrençanaohaesperançanaohasernaohasentidoourazaodeviver....

--PAREM COM ISSO!!!!!!!!!!!!!!!! -- Ele levanta ofegante. As vozes cessam. Uma rápida inspecionada ao redor e tudo está em seu devido lugar.

Uma luz de vela interrompe a escuridão dos pálidos raios lunares. Era Lucius.

-- Jure, você está bem? O que aconteceu? dava pra ouvir os seus gritos da Caverna Cristalina...e isso é muita coisa.... --

-- Ah...Lucius....-- ainda ofegante -- não...não foi nada demais. --

-- Como nada demais? parece que você percorreu Zephyr inteira a pé! --

-- Eu to bem, muito obrigado, agora volte...--

-- Não Jure. Vamos conversar. --

-- Lucius, por favor, eu preciso descansar. Sabe o quão exaustivo é o treinamento do mestre Pai Long. --

-- Acontece que você NÃO está descansando, e o pior, está acordando o templo INTEIRO! --

--...--

-- Foi o que eu pensei. Agora me conta...foram aqueles pesadelos denovo? --

-- Pe...como você sabe? --

-- Ora essa Jure...esqueceu que sou versado na arte de invasão e leitura de mentes?
Mestre Pai Long me pedi para ficar "de olho" em você e te sondar periodicamente.
--

-- Que ótimo...uma babá...--

-- Dispenso este seu sarcasmo tipicamente sulista Jure. A quanto tempo tem estes pesadelos? --

--...--

-- Vamos homem...me diz. Pode confiar em mim. Não estou lendo sua mente, tampouco vou contar para os outros. --

-- Nem pro sifu? --

-- Impossível, ele arrancaria a informação com os punhos... --

-- Certo...eu tenho isso desde criança, mas sempre foi muito brando. Perfeitamente normal. --

-- E o problema começou de fato?... --

-- Numa estalagem em Pejite*. Foi uma das piores experiências da minha vida. --

-- Eu posso entender, juro. --

-- E Depois tornou-se rotina. Pode ser tanto um cochilo quanto dormir de esgotamento...sempre há esses sonhos malditos... --

-- Certo...eu acho que posso fazer algo por você...tente dormir novamente. Vou clarear sua mente pra que tenha uma noite tranquila.--

Jure se deita mais uma vez. Lucius põe as mãos sobre a cabeça do amigo e assim que ele entra em sono...

Jure acorda novamente, mas dessa vez não é o seu grito, e sim o de Lucius. O monge jamais podia imaginar testemunhar o que acabara de assistir dos sonhos de Jure.


Continua no próximo capítulo...


Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Estrela Cadente

Mensagem por GM Jure em Dom 22 Abr 2012 - 2:06

Capítulo 2, parte 1 - Sábias Decisões.


Passos largos, rápidos e silenciosos. Esgueirar-se pelas sombras e evitar olhares a qualquer custo. Sentir cheiro de esgoto, e sabe que ele vem das suas calças e botas. Cara de mau, sentimentos reprimidos, mente calculista. Estar sempre de prontidão, sempre escondido, sempre do lado errado.

É, não é fácil estar do lado dos bandidos. Não há compensações e nem satisfações, pobre daqueles com ego enorme. E a figura que cruza os becos imundos e escuros do Vale dos Ventos é um desses desafortunados com ego maior que a imagem.

"Droga...eu devia ter me antecipado. Agora aquele babaca me fez chamar atenção demais. Com sorte eu resolvo isso na próxima esquina."

Sem sorte. Foram necessários mais dois quarteirões antes de conseguir encurralar a presa.

"Tsc, devia ter ouvido o meu conselho, babaca."

E lá está o desgraçado. Um passo em falso, e uma fuga quase possível se torna apenas mais uma morte grotesca.

O coitado tenta, inutilmente, levantar-se. Torceu o tornozelo, talvez até tenha luxado. E agora rasteja.

A figura sombria que o perseguia agora diminui o passo. E um filete de luz refletida na lâmina de sua adaga corta a escuridão do beco.

"Por onde eu começo?"

Os olhos do homem rastejante são apenas horror. Ele sabe o que vai acontecer, e lamenta profundamente não ter adquirido nenhuma fé durante sua vida para abrandar sua certeza de morte. Dor e morte, nesta ordem, para ser mais preciso.

E exatamente no momento em que a adaga adornada é levantada e apontada contra seu alvo, surge um grito de esperança. Ou apenas mais um empecilho. Escolha seu ponto de vista.

-- PARADO EM NOME DA LEI! -- Gritou um sujeito, enquanto descia de seu cavalo.

"Ah ótimo. E agora vão ser dois cadáveres."

-- Largue a arma agora! -- E o sujeito saca sua espada. Um sabre padrão do exército do Vale dos Ventos.

"Peraí, ele acha que vai me impedir com isso? ISSO?!?! Ele precisa de uma surra e depois, uma sessão de tortura. Imbecil ainda saltou do cavalo...amadores."

-- Eu não vou repetir, largue a arma ou...--

-- Ou o que? -- A voz grave ecoa.

-- Eu vou... --

Seu alvo não vai sair do lugar, e isso é certo. Hora de encarar o metido a herói.

-- Vai me fazer cócegas com essa espadinha ridícula? -- Ele se vira lentamente, enquanto faz um movimento com a adaga, apontando-a para cima.

-- Se enxerga. Você é da divisão de investigação, achou que eu não ia notar? -- Sempre foi mestre em análises, qualquer tipo de análise. O soldado gelou.

-- Se bobear nem deve ter concluído o treinamento básico. Sua mãe deve socar mais forte. --

"E agora ele vai tentar provar que é machão e vai tentar me acertar no peito."

Dito e feito. O corte sai sem firmeza, direcionado ao peito do homem sombrio.

Um movimento simples com a adaga, e o desarme é feito. Ele parte então para uma joelhada na altura do estômago e uma cotovelada na nuca, e o trabalho está feito. O homem cai no chão desacordado.

Havia um olhar de esperança dentro do beco, que sumiu junto com a consciência do soldado.

-- Muito bem...onde eu estava mesmo? -- Diz o sombrio enquanto torna a encarar o homem que rasteja. -- Vou começar cortando cada dedo das suas mãos e pés. -- Ele caminha lentamente para ficar mais próximo da sua vítima.

--Se, por acaso você não abrir o bico, eu avanço pra outros métodos. -- O sombrio pisa no tornozelo torcido da sua vítima, fazendo-a se contorcer.

-- E como eu sou um cara muito exigente e muito bom no que eu faço, vou te manter vivo e agonizando até extrair exatamente a informação que eu quero, estamos combinados? -- Enquanto diz isso, ele pega o outro pé, retira a bota, e lentamente começa a serrar o dedo mínimo. -- Quando resolver falar, é só dar dois tapinhas na minha perna.

"Lâmina serrilhada, adoro isso. Seria perfeita se não fosse a inconveniência de limpar e amolar com mais frequência."

Dor, sem gritos. É só uma questão de tempo, até que o pobre homem ceda. Um tempo frustrante mente menor do que o imaginado.

-- Tsc, fraco. Eu achei que ia me divertir mais. Diz logo. --

O homem abre a boca, mas não emite nenhum som.

-- É, eu sei que você não pode falar, e é por isso que eu trouxe aqui comigo esse maravilhoso elixir anti-silencio. Beba. -- E ele enfia goela abaixo a poção insossa.

No segundo seguinte da última gota ser ingerida, todos os sons da cidade voltaram à tona. O homem estava sob efeito de um feitiço silenciador de bastante incomum. Além de ótimo analista, o Sombrio é também muito precavido, pois uma poção anti-silêncio comum não seria suficiente. Uma poção anti-feitiço é a solução para quase tudo.

-- Agora comece. -- O sombrio colocou o homem em uma posição na qual pudesse ver seus olhos. Os olhos contam mais verdades que a boca.

-- *gulp* argh...do que você quer saber exatAHHHHH -- Mais um dedo serrado. -- Merda! seu...MERDA!....tudo bem....argh....eu conto...-- Agora sim, temos uma conversa franca.

-- Foram ordens superiores. --

-- Ah por favor, me economize. Claro que foram ordens superiores, você não tem cérebro suficiente pra planejar algo além do que a sua próxima refeição. --

-- Se alguém descobrir o que você está fazendo comigo, você vai ter problemas. -- E mais um dedo avulso. Dessa vez os gritos são contidos pela mão do Sombrio.

-- Primeiro, você não está em condições de ameaçar ninguém. -- A adaga encosta na pele.
--Segundo, eu não lhe devo satisfações, é exatamente o contrário. -- Ela corta a pele.
--E por último, mas o mais importante, eu tenho uma paciência de pedra, e absolutamente nada do que você diga vai me desviar. -- Ela se aprofunda.

-- Agora você me deu uma ideia muito interessante. Você vai falar, enquanto eu te serro mais um dedo beeem devagarinho. --

-- AH....droga....EU NÃO SEI...AHHHHHH....PARA....MERDA......QUEM SABE É BRIAN....BRIAN!!!! --

-- Brian...Brian Skemmdir? --

-- É....Skemmdir!....seu...maníaco...--

-- Não pensei que diria isso mas...obrigado, sua informação foi valiosa. Sabe...você tomou a decisão certa em me falar logo...olha só, até sobraram dedos....-- O Sombrio pega mais um frasco de poção.

-- Quero que beba isto, e sem cuspir, e nem fazer cara feia, combinado? --

- O que é isso? --

-- Isso? bobagem...é o meu jeitinho de retribuir sua ajuda. Beba. -- Mais uma vez, goela abaixo. Um gosto doce desta vez.

O homem então percebe que não controla mais os movimentos do corpo. Ainda sente todo seu corpo, mas não controla. Sente todo o ambiente à sua volta, mas é incapaz de interagir com ele.

-- No caso de estar se perguntando...esta é uma poção criada por mim...sou bastante talentoso, como pode observar. O que ela faz é muito simples. Ela induz a uma condição chamada síndrome do encarceramento...que acredito já estar tendo efeito agora. -- O sombrio limpa a adaga nas vestes do "encarcerado" e se levanta.

-- Em algumas horas você sofrerá um evento de catalepsia, o que o tornará um cadáver para qualquer exame realizado em você. Mas não se preocupe, você vai se recuperar...mas acredito que já estará enterrado numa cova rasa...sem caixão...pobre indigente. -- Ele caminha até o soldado desacordado, e o observa.

-- Mas sabe o que é mais legal? é que você vai continuar encarcerado. Vai ficar incapaz de se mover, mas vai sentir fome, sede, e o que eu acho mais divertido, os vermes devorando deu corpo. --

O soldado começa a se mexer. "Ótimo, quero ele bem acordado par o que eu tenho em mente..."

Mas os planos do Sombrio são interrompidos. O som dos cavalos indica que há problema chegando.

-- Tsc, você é um cara de muita sorte. Torça para que sua sorte te impeça de cruzar meu caminho novamente. --

Uma última inspeção pelo local e o Sombrio corre. A sensação de dever cumprido, por enquanto. Deixa para trás um homem que agora é espectador da sua própria desgraça.
E um soldado impetuoso, com uma baita dor de cabeça.

Olhando por um ângulo um tanto quanto distorcido e doentio, talvez haja compensações em estar no lado dos caras maus...todo dia tem o potencial para ser instrutivo e excitante...ao mesmo tempo.

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Estrela Cadente

Mensagem por GM Jure em Dom 13 Maio 2012 - 18:14

Capítulo 2, parte 2 - Sábias Decisões

-- Midríase, rigidez muscular, palidez, sudorese, taquipineia, taquicardia. -- Diz o afobado monge Andres, o especialista em cura do Templo Norte. Por aqui as coisas são muito diferentes do Sul, por conta do desenvolvimento das cidades. Aos nortistas, a fartura e prosperidade, aos sulistas, guerra e Fukai.

-- Agora traduz isso. -- Diz jure, sem entender absolutamente nada desses termos esquisitos.

Andres ajeita as lentes esquisitonas que usa apoiadas no nariz e suspira. -- Ele não está nada bem. --

--Isso nós estamos vendo. Quero mais informações. -- Há uma leve inflexão de impaciência na voz de Lee.

-- Sinto muito Sifu. O que quer que esteja acontecendo com ele, está acontecendo dentro da cabeça dele. Infelizmente Lucius é o melhor telepata do templo e...bem...ele não está disponível no momento... -- Andres logo se arrepende da ironia ao sentir o olhar cortante que Lee certamente lança em sua direção.

Jure sente as dores do monge curandeiro e resolve...quebrar o gelo.
-- Ahm...Sifu Pai Long...acredito que eu deva explicar o que aconteceu...--

-- Você acredita em muita coisa, Jure. Deveria encarar o mundo de maneira mais cética. --

-- Perdão Sifu, eu não entendo. --

-- Será que é possível que seja tão ingênuo assim? -- O mesmo tom de voz de quando repete algo pela terceira vez. Nunca é bom chegar a tanto, da última vez foram alguns ossos fissurados.

--Morei minha vida inteira na clausura de um monastério isolado, como o senhor espera tanta perspicácia de alguém que mal viveu? Ingenuidade sua, acredito eu.--

Silêncio. Andres olhou incrédulo para Jure, como se ele fosse algum tipo de herege profanador. Um Judas que ousou estar contra o messias.

-- O que foi? Nunca lhe responderam à altura? -- É o prólogo de sua catarse. Nunca havia levantado a voz contra ninguém que não merecesse, especialmente os mais velhos.

-- Vou lhe dar um única chance de se desculpar, Jure. E agradeça aos teus precedentes por essa minha piedade. --

-- Ou o que? -- Involuntariamente ele franze o cenho e cerra os punhos. Não passa pela sua cabeça enfrentar Lee Pai Long, é apenas efeito do sangue quente.

-- O que está tentando provar com essa atitude, garoto?! Na próxima eu quebro suas pernas de maneira que nem Andres vai consertar! --

-- É assim que quer manter o respeito de seus discípulos? Wang Jinrei nunca precisou amaçar ninguém pra obter seu respeito! --

-- Jinrei é um dissimulado. Você acha mesmo que ele é esse ser todo iluminado e benevolente? --

-- Não ouse falar assim do meu Mestre! -- Seu corpo agora começa a assumir uma verdadeira postura de ataque.

-- Acha que sou muito rígido, autoritário e tirano? Então me diz, quem foi que trancou um garoto num templo, exigindo o máximo do esforço físico para então jogá-lo sozinho no mundo para enfrentar um ecossistema assassino infestado do insetos? -- Jure trinca os dentes, para o deleite secreto de Lee. -- Seu amado mestre Jinrei o enviou para uma missão suicida, e ainda assim você o idolatra! --

Foi a gota d'água. Todo esse período em que foi submetido a humilhações e assédio moral por parte de Lee. Aquela arrogância desse pretenso Grão-Mestre, dito "um dos homens mais próximos de Budah". Grande engodo. Lee é a escória, alguém que não se contenta com a própria infelicidade, e resolve espalhá-la pelo mundo. Nada mais explica seu comportamento.

Mas Jure sabe que não é páreo. Ainda não se recuperou do treinamento do dia anterior, seus músculos ainda ardem e os ossos estão a ponto de fraturar. Mesmo que estivesse em boas condições, ele é uma formiga, e Lee um elefante.

O soco cortou a distância entre os dois. Lee sequer esboçou reação até o último segundo, quando segurou e torçeu o braço do jovem monge.

-- Escuta aqui seu moleque. Eu estou salvando a sua vida. --

A dor era imensa. Jura não conhecia ninguém que aplicasse uma chave mais dolorida que Lee. Doía mais ouvir aquelas palavras.

-- Wang fez umexcelente trabalho em construir o homem. Você seria mais um perdido de Kannin a essas alturas se não fosse por ele. Mas isso não é suficiente. -- Jure tenta se soltar, mas Lee reforça o golpe.

-- Você tem a força de vontade necessária para enfrentar qualquer perigo, mas apenas na forma de bondade. Wang criou o homem, e eu vou criar o soldado. Só assim você vai poder cumprir seu objetivo. --

Isso nunca havia ocorrido a Jure. A dor o impede de raciocinar, mas certamente ele nunca havia pensado seriamente a respeito de seus objetivos de vida.

-- Eu espero sinceramente que isso não se repita. Você é inteligente o suficiente para tomar a decisão de acatar o que eu digo. Minha paciência tem limite. -- E por fim o alívio. Lee solta o braço de Jure, que recua segurando o membro, na tentativa inútil de parar a dor.

-- Andres, dê um jeito nesse braço e...-- Mais uma vez Lee é interrompido bruscamente, mas dessa vez não é por nenhum monge impetuoso.

A mão de Lucius aperta com força o pescoço do monge curandeiro, dando um tom cianótico à face deste. Em seguida o som de vértebras quebradas, e o corpo de Andres cai inerte no chão.

-- Ainda consegue mover o braço Jure? Pois chegou a hora de por em prática o que treinamos. -- Diz Lee, sereno, diante de um Lucius irreconhecível. Seus olhos transbordam loucura.


Momento Auto Merchandising: ACESSEM MEU BLOG!


Última edição por GM Jure em Qui 19 Jul 2012 - 21:18, editado 1 vez(es)

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Estrela Cadente

Mensagem por GM Jure em Qua 18 Jul 2012 - 2:44

Capítulo 2, parte 3 - Sábias Decisões


"Escuro, frio e só. Engraçado como eu não faço ideia de como vim parar aqui. Preciso falar com Crowditch, ele com certeza tem alguma informação sobre o caso do assassino de prostitutas. Aliás, ele é quem precisa falar comigo sobre aquela atitude lá no beco. Preciso pedir desculpas para a Janis por ter saído apressado..cara, mas noite agitada...Sabe, eu nunca reparei como a solidão incomoda tanto..."
-- Gab, acorda!--
"Olha só...parece o Crowditch gritando comigo...o que ele quer?"
-- GABRIEL!--

Um grito, quase um rugido do Capitão Crowdicth e Ashlocke acorda num sobressalto.

-- EU TE PEGO SEU MISERÁVEL FILHO DUMA... -- Nem precisou completar a frase para perceber que já era tarde demais para xingar seu adversário. Viu apenas Crowditch com uma expressão preocupada. -- Capitão? mas...--

-- Você apagou Gab. Seja lá no que se meteu, você desmaiou e ficou assim por um bom tempo. -- Diz o capitão, enquanto ajuda Ashlocke a se sentar.

Foi só a mente lembrar do ocorrido que o corpo resolveu lembrar da agressão sofrida também. Ashlocke logo começa a ter uma forte dor na nuca. -- Droga...aquele bastardo! -- Diz enquanto massageia o ponto doloroso. -- Eu quase peguei ele capitão. Escapou por um triz. --

-- Quem escapou por um triz foi você Gab. Um mendigo viu um vulto saindo daqui pouco tempo antes de te encontrarmos. --

-- Fugiu ao ouvir os cavalos. Covarde. --

-- É, mas deixou um presentinho. -- Diz Crowditch, apontando para o fundo do beco.

Pelo chão um rastro escarlate que reluz o brilho da lua minguante em direção a uma enorme poça rubra. No centro da poça, um homem com vários dedos mutilados.
O frio na espinha de Ashlocke supera sua enxaqueca por instantes. Ele poderia ser o cadáver agora.

-- O que descobriram sobre ele até agora?--

-- Nada. Sou só o cão que ladra, você é o farejador aqui. -- Crowditch agora levanta Ashlocke, que se ergue com dificuldade.

-- Mas que droga...olha isso capitão...os dedos...arrancados com uma serra. Deve ter sido horrível. --Gabriel inspeciona mais de perto o suposto morto. -- Estranho...à primeira vista eu diria que ele morreu por hemorragia e choque hipovolêmico...mas repara nisso...-- Ele encosta a mão no pescoço do "morto".

-- Ah Gab, tenha dó...você nem pôs luvas.--

-- Está frio...em temperatura ambiente.--

-- Você é brilhante filho, mas às vezes acho que é meio avoado...estamos no Vale dos Ventos, aqui as noites sempre são frias, e com esse vento todo então...--

-- Não senhor, um corpo demora no máximo 24 horas pra entrar em temperatura ambiente...mesmo numa noite como essa...o mendigo não havia dito que acabara de ver um vulto? Bom, pra chegar nessa temperatura são necessárias pelo menos umas 10 horas de exposição ao frio. --

-- E o que sugere? --

-- Nada. Ele tá morto, não há o que fazer quanto a isso. -- Algo, na epiderme da consciência incomoda Ashlocke. Imediatamente Crowditch compreende o silêncio de seu protegido. Investigadores lidam com fatos consumados, crimes, para ser exato. Gabriel teve, pela primeira vez em sua vida, a chance de evitar que um crime acontecesse. Mas falhou. Só resta agora fazer o seu trabalho.

-- Escuta garoto, você fez o que pôde. Aliás, você sempre faz mais do que pode. Se não fosse por você...--

-- Eu sei, muitos marginais estariam soltos. Muitos crimes sem solução, muitos mistérios encobertos. Eu gosto do que faço, só não me conformei com...isso.--

-- Vá para casa, Janis está te esperando. Tome um chá daqueles importados de Jylia, ouvi dizer que fazem milagres com qualquer tipo de dor. --

-- ...-- "Dor. Serras. Serras para causar dor. Esse sujeito foi torturado, isso fica claro pelo sangue espirrado. mas não foi a tortura que o matou...esses olhos pedindo clemência...aterrorizados...droga...eu não pude fazer NADA!"

-- Ah claro, quase esqueci de perguntar, você conseguiu identificar o safado?--

Os lamentos e a autopiedade de Gabriel são interrompidos. E junto da enxaqueca voltam a memória do curto combate.

O beco escuro. A pouca luz vem da lua e de lamparinas distantes. Escuro...escuro...
-- Ele usava roupas pretas. eu não sei dizer ao certo como eram...mas era tudo preto...e ele tinha vários acessórios...metais. --

Seu rosto. Toda vez que tenta lembrar do rosto, uma caveira toma seu lugar. Como se ele fosse o próprio arauto da morte.

-- Não lembro do rosto...-- Seus dedos úmidos, uma viscosidade esquisita.

-- Lembra de mais alguma coisa? --

A voz...
"-- Ou o que? --
-- Vai me fazer cócegas com essa espadinha ridícula? --
-- Se enxerga. Você é da divisão de investigação, achou que eu não ia notar? --
-- Se bobear nem deve ter concluído o treinamento básico. Sua mãe deve socar mais forte. --"

-- Sua voz é grave. -- "E me gela a espinha até agora."
-- Ele usou uma adaga serrilhada, provavelmente a mesma com que me enfrentou. É bom de briga e aparentemente fez a lição de casa...conseguiu identificar meu uniforme de investigador. -- "O cara tem um raciocínio tão rápido quanto o meu."
-- E tinha um cheiro de morte perto dele...--

"Cheiro...algo não cheira bem. Não é a insalubridade do beco..nem o cheiro do cadáver...esse cadáver....se isso não for magia..."

-- Tudo bem então vou mandar o corpo para a necrópsia e...tá me escutando?--

Asholcke observa o corpo sendo levado para uma carroça junto do outro corpo encontrado naquela noite.

"Isso definitivamente não está certo. Ele não sangrou tempo suficiente pra morrer, não morreu a tempo suficiente pra gelar, não tem mancha ou escoriações maiores de briga...e o assassino era bom de briga...bom demais pra lidar com magia..."

-- Capitão William, o senhor precisa levar esse homem urgente aos alquimistas! --

-- Como? mas é um cadáver Gabriel! Está morto e necromancia é proibida nesta cidade!--

-- Esse homem não está morto capitão. Olhe a boca dele, está entreaberta.--

-- Francamente, eu preciso de evidência melhor que essa. -- Gabriel quase enfia o dedo indicador no nariz do capitão.

-- Esse líquido está saindo da boca dele e escorrendo pelo pescoço, posso lhe afirmar com certeza de que não é saliva, de jeito nenhum! --

Ainda sem acreditar, Crowditch é vencido pelo cansaço. -- Tudo bem, vou dar a ordem. É bom estar certo, odeio me meter com aqueles alquimistas. Se acham uns espertos. -- E imediatamente vai falar com os outros soldados.

Ashlocke permanece imóvel observando o que restou da cena. Poças de sangue num beco, corpos mutilados...As coisas passam a ter alguma coesão. Infelizmente Crwoditch parte com os corpos antes que Ashlocke possa interrogá-lo. Mas tudo bem.

Pela primeira vez, Gabriel Ashlocke vai poder não fazer seu trabalho, vai poder contar não com um cadáver, mas com um ser vivo. Uma vida que ele salvou. Afinal de contas, foi para isso que ele escolheu servir o Exército do Vale dos Ventos: não para tirar vidas, mas para salvá-las e protegê-las. A mais sábia decisão decisão de sua própria vida.

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Estrela Cadente

Mensagem por GM Jure em Sex 7 Set 2012 - 3:57

Capítulo 3, parte 1 - Rendezvous


Onde a perfeição é alcançada, e toma seu preço; Um pupilo deve proteger seu mestre, podendo pagar com a vida; num encontro inesperado à soleira de uma porta, prometem dar o troco.

Spoiler:
Relembrando o último capítulo:
Ashlocke acorda e salva o homem torturado da morte. Jure tem uma discusão com Lee, Lucius reanima e não parece amistoso. O Sombrio consegue uma informação valiosa e some na noite.

Reza a lenda que durante a madrugada, à partir da meia noite e se estendendo até às três ou quatro da manhã, as almas de outros mundos vagam por entre nós. Sejam apenas espectros umbralinos menores caçando alento para suas dores, sejam os próprios príncipes do Inferno à procura de uma macabra e trivial diversão. É nesse horário em que nossas vibrações alcançam outras, profanas, frequências.

Acreditando ou não nisso,é fato de que não é preciso descer tanto no Abismo metafísico para descobrir espíritos sem luz, de incrível dom para o mal. Estão aqui mesmo, e são espíritos humanos, encarnados. Seja lá qual o seu credo, é lugar comum que a dualidade é uma lei universal. Os "dois lados da moeda", "bom e mau", "luz e trevas".

E numa sala quente e esfumaçada, com um jogo de luz e sombras projetado por um imenso vitral que dá um ar tenebroso e expressionista para o local, estão reunidas alguns dos homens e mulheres mais vis da existência. E "vil" apenas por falta de termo mais adequado. São almas malignas em invólucro humano de mente perturbada. Todos ali partilhando a mesma visão de mundo, o mesmo ponto de vista distorcido das coisas.

"O velké lidské vědomí. Nejvyšší státní duch nejvyšší bytost, člověk. Nechte nás, prostřednictvím těchto skromných oběti, dosáhnout svého dokonalosti, O velké lidské vědomí"

A prece ecoa por todos os cantos do aposento, mesclando-se com o odor da mirra e do açafrão. Repetida incessantemente, ad eternum. A bruma parece dançar ao som das vozes, e convida a penumbra para seu baile macabro. Há certa beleza nesse macabro.

Beleza é a última coisa que passa pela cabeça do rapaz acorrentado enquanto assiste o seu próprio funeral. Está vivo, em pleno domínio de suas faculdades mentais, com coração pulsante e tudo mais que caracteriza um ser vivo. Está morto em vida, ou talvez apenas jurado de morte. Uma morte nada digna e que está a apenas metros de distância.

Seus grilhões estão presos a um enorme símbolo de madeira, em uma posição altamente dolorosa e desconfortável e em um dos vértices de um heptagrama desenhado no chão com giz, sangue e carvão. Simétrico a ele há uma moça em igual condição, que chora copiosamente. Nos outros pontos há duas piras onde queimam a mirra e o açafrão, duas pias com água cristalina e uma caixa. Na ponta do heptagrama há um enorme tomo aberto. Ele e a prisioneira estão sem roupas, e em ambos são visíveis grandes escoriações.

Ao redor, um círculo de homens e mulheres que entoam as palavras profanas. Todos com vestes que lhes cobrem o rosto e que parecem estar em comunhão com a fumaça, luz e sombras.

Sem interromper o canto, a roda se abre e uma figura adentra. Suas vestes são adornadas com detalhes em ouro e prata. Ela cruza o heptagrama em direção ao tomo sem pressa. A figura pára em frente ao tomo e começa a ler suas páginas. O canto aumenta vigorosamente antes de cessar.

-- Je čas. Příjem naši nabídku a místo toho představí nám své moudrosti! -- Fala a figura, num tom grave tão intimidador que fez o coração do rapaz acorrentado parar por instantes. É oficialmente o começo de seu fim, o anúncio oficial dos festejos de sua morte.

-- Pochválen buď tvé moudrosti! Pochválen buď tvé moudrosti! Pochválen buď tvé moudrosti! -- Repete o coro, em resposta.

-- Zadání choti! -- Ordena a voz tenebrosa e o coro retoma a prece inicial.

Duas figuras surgem dentro do círculo. Um homem e uma mulher. Nus, usando apenas uma máscara que oculta suas respectivas faces. Uma máscara feita de espelhos, como se zombassem do que vem a seguir.

Ambos se dirigem às pias e se lavam. Em seguida abrem a caixa onde pegam um pires com um chumaço de ervas em cima. As ervas são incendiadas e logo amos se aproximam dos prisioneiros. Com um movimento de mão, a fumaça resultante da combustão das ervas é levada até as narinas dos acorrentados, e tragadas para o âmago de seus pulmões.

À partir deste ponto, o rapaz fica tonto. Nunca havia lhe ocorrido tal sensação,apesar de recordar vagamente, pessoas agindo tontamente desta maneira em casas de ópio.

Do pouco que conseguiu observar em seguida, apenas a mulher mascarada trazendo uma pedra azul, e fazendo-o engoli-la. Em seguida, já enauseado, ele a vê buscar um segundo pires, dessa vez com uma pasta, que ela passa em seu corpo formando desenhos e figuras geométricas.

Seu estado é torpe demais para entender que estava tendo uma relação sexual com a mulher. Ou seria consigo? Seus olhos apenas captavam sua imagem...sua imagem extasiada e transfigurada.

E por fim, o fim. Morto. Sua vida se esvai, junto com seu fluído seminal.

Mas há algo entre o momento do êxtase e a morte. Algo que o rapaz jamais saberá o que é, pois está morto. Seus lábios mexendo, suas cordais vocais proferindo o dom da palavra. Enquanto perdia sua própria consciência definitivamente, ele foi a Consciência Humana definitiva. Ele foi Deus, ou seja lá qual a sua crença. Ele foi algo superior.

E em algum lugar nos fundos do templo profano, um ser sombrio e resmungão bate a porta logo que entra, anunciando sua chegada em alto e bom som. -- Tenho notícias, Cadena. Onde está Gerrárd?-- Sua resposta é apenas um aceno para baixo. É o suficiente. "Cheguei em boa hora então".

E assim segue uma noite muito incomum.

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Estrela Cadente

Mensagem por GM Jure em Sab 17 Nov 2012 - 3:09

Capítulo 3, parte 2 - Rendezvouz


Onde a perfeição é alcançada, e toma seu preço; Um pupilo deve proteger seu mestre, podendo pagar com a vida; num encontro inesperado à soleira de uma porta, prometem dar o troco.

Jure cruza a sala como um cometa desenfreado. Sua trajetória só é interrompida pela parede, que é incapaz de conter o impacto do jovem monge contra sua superfície. Um rombo é aberto e Jure cai dentro de um dormitório.

"Isso....doeu." Hesita um segundo antes de levantar e decide que é melhor descansar antes de apanhar mais. Lee Pai Long apenas o observou levar a surra da sua vida sem nem esboçar reação.

"Velho lazarento...tomara que tenha levado uns tapas do Lucius..." Às vezes é melhor deixar nossos sentimentos mais profundos no abismo onde habitam. Um silêncio mina a secreta vontade de ver Lee recebendo um golpe em cheio, ou dois.

-- Desculpa pela bagunça. -- Diz aos monges grogues de sono que despertaram, enquanto se levanta e se recompõe.

Ao olhar para dentro da sala de acupuntura, Jure vê Lee e Lucius estáticos, um de frente para o outro, com uma distância considerável entre eles.

"Estão se estudando...Mestre Pai Long não é nenhum frangote que nem eu...Lucius precisa calcular bem o que pretende fazer se quiser acertar o Sifu."
Um segundo olhar revela outra situação.
"Espera...eles não estão se estudando. Estão completamente parados, não há movimento ou técnica a ser estudada. Eles estão..."

Ao atestar o óbvio, Jure se recorda que Lucius é o maior telepata do Templo Norte. Lucius está tentando atacar Lee onde sua desvantagem é menor: na mente.

Aos poucos outros monges vão aparecendo, acordados pelos estrondos causados pela breve surra de Jure. Eles se amontoam atrás dele para assistir de camarote o embate psíquico.

"Preciso ajudar o Sifu. Vou aproveitar que Lucius está distraído e...AAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH AUAIGSIUAGLIYFLUYDFLE¨YUTGIHGBFJNB>JSBH>>EIYGF>IEUGFE>UGFOET#T(&#T&RTËTW(Y^^{^:ÇLÇÇ^ÇAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHH" Uma intensa enxaqueca assola Jure no momento em que ele pisa dentro da sala. Ela só pára quando um monge o puxa de volta ao dormitório.

-- Eu não faria isso de novo se fosse você. O campo telepático deve estar insuportável, mais um passo e seu cérebro viraria mingau. -- Diz Beior, o monge glutão bem acima do peso que o puxara.

-- É...percebi. -- Retruca Jure, com uma aspereza que não lhe é comum.

-- Olha, eu não sei o que tá acontecendo, mas Lucius está perdido. Mesmo ele sendo o maior crânio quando se trata de poderes mentais, ele não é páreo pro Sifu, afinal ele é o... --

-- O homem mais iluminado vivo, é eu sei. -- Jure já está cansado de ouvir isto.

-- Veja! -- Aponta um outro monge que Jure sequer conhecia (ou simplesmente não se deu o trabalho de reconhecer).

Lucius apresenta sinais de cansaço. Seus músculos da face esboçam uma expressão de dor e de seus poros vertem rios de suor. Suas veias saltam e seus músculos se contraem de tal forma que agora está completamente irreconhecível. O sempre sereno Lucius mais parece uma besta primitiva.

É quando enormes rachuras começam surgir no chão, teto e paredes, seguidas de vasos e outo objetos quebrando. Tudo começa a tremer levemente e consecutivas ondas de energia psicocinética emanam da sala, ameaçando sua estrutura e a do próprio templo.

Jure e os monges se jogam ao chão após a primeira rajada. É quando Lee Pai Long então quebra a sua monótona pose com as mãos juntas nas costas e assume uma postura de batalha. Ele nem se abala ao ser atingido pelas ondas.

As rajadas psicocinéticas cessam, as são substituídas pelo choque dos punhos e pernas do Grão Mestre e do Mestre Telepata do Templo Norte. Movimentos tão rápidos que um olhar descuidado e destreinado simplesmente não o enxerga, como o bater das asas de um beija-flor.

E quando todos acham que a situação está por fim resolvida, Lucius surpreende a todos acertando em cheio um soco na máscara de Lee Pai Long. Uma pequena rachadura surge bem no seu centro. Uma rachadura numa máscara que resistiu intacta a poderosas rajadas de energia não muito tempo antes.

Todos olham estarrecidos. Mais inédito do que o fato de um dos monges de confiança do Grão Mestre o ter desafiado para um combate era o fato de o todo poderoso Lee Pai Long, o homem mais iluminado vivo, ser atingido em combate corporal. Simplesmente inconcebível.

Mas Lee não deixa por menos e tão logo recobra do golpe sofrido segura o braço de Lucius e o fratura imediatamente com uma poderosa chave. Os olhares estarrecidos permanece quando o sorriso malévolo de Lucius não dá lugar à tão esperada dor. Todos se perguntam o que há, mas Jure já faz ideia do que seja. E seu conhecimento do perigo presente naquele momento o faz assumir a postura do Galo com o suporte do Rato imediatamente.

Lucius, com o braço que lhe sobra, pega Lee pelo colarinho e o tira do solo. Todos os esforços de Lee para se desvencilhar de Lucius ou quebrar seu segundo braço se mostram absurdamente inúteis. Novamente um campo telepático começa a se formar. Tamanha é a intensidade que a rachadura na mascara de Lee aumenta.

Sem pensar duas vezes, Jure parte para acertar Lucius. Beior ainda tenta, sem sucesso, conter o monge que dispara como um cometa em direção ao epicentro de novas rajadas psicocinéticas.

E com um baque forte, Jure acerta o pescoço de Lucius. O efeito é instatâneo e Lucius larga Pai Long e desaba no chão, incapaz de movimentar-se. O campo telepático se mantém e logo a nauseante enxaqueca toma conta de Jure novamente.

Lee, sem titubear aplica um golpe certeiro na testa de Lucius. A enxaqueca passa.

-- Está desacordado. -- Diz, seco, o Grão Mestre. Por detrás de sua sisudez existe um enorme alívio, no entanto. -- Assim que acordar terá que responder umas perguntas. Como está você Jure? --

-- Hein? como estou eu? Eu é que deveria perguntar isso pra você, Lee. Sua máscara tá rachada! -- Às vezes é melhor manter o que queremos dizer escondido em nossos âmagos.

Lee assume sua postura usual e encara Jure, por trás de sua máscara rachada. Um sermão é o mínimo que se espera.

-- Tem razão, não estou bem. -- Mais olhares estarrecidos. De todos os cantos. -- Mas Andres está pior, vá aferir seu estado, já. -- Lee nunca deixaria a peteca cair. Jamais.

Assim que Jure passa pelo corpo inerte de Lucius, um calafrio sobe sua espinha. Um milésimo de segundo que se tornou eternidade quando os olhos de Lucius se abrem e o encaram.

São seus demônios, seus pesadelos, tornando realidade.

-- ASTER! -- Lee o trás de volta ao mundo real. -- Largue esse caco de vidro. --

"Caco de vidro mas..." Só agora se dá conta de que segura um enorme caco de vidro de um pote de conservas de Andres. Está apontado para seu próprio estômago.

-- Eu...eu...-- Larga o caco e olha para o Sifu. Respira fundo para clarear a mente e segue até Andres, colocando os dedos em seu pescoço.

Um enorme alívio o preenche quando sente pulsação no monge curandeiro.

-- Está vivo. -- Diz, com um largo sorriso.

-- Ótimo. Beior e os outros fofoqueiros, limpem essa bagunça, cuidem de Andres e tranquem Lucius na Cela Cristalina. -- Ele se vira para a porta da sala. -- Vamos Aster, precisamos por mais alguns pingos nos "is". -- E sai.

Tudo o que Jure Aster quer é um pouco de sono tranquilo. E um pouco de arnica pra tirar as dores do corpo. Quis o Universo que essa noite fosse mais longa e agitada que o normal.

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Estrela Cadente

Mensagem por Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 :: Home. :: Flood. :: Fanfics.

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum