Revoada de Corvos

 :: Home. :: Flood. :: Fanfics.

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Revoada de Corvos

Mensagem por Convidado em Dom 6 Jul 2014 - 1:04

Aviso este texto não e de minha autoria, eu gostaria de colocar este texto como tributo a uma antiga fonte de inspiração, a RedeRPG.

Revoada de Corvos


A chuva cai em seu rosto e lhe trás de volta a consciência. Demora pouco mais de alguns segundos para perceber que a água batendo no lado esquerdo do seu rosto está quente demais para ser chuva. Após ouvir os risos ao seu redor, Olav não precisa nem abrir os olhos para saber que estão mijando em seu rosto. Ele tenta dizer: Merda! mas a única coisa que sai de sua boca é um Ugh.
– Acordou princesinha? – ele ouve um dos homens falar enquanto o outro gargalha e depois repete o mesmo gracejo, mas com uma voz esganiçada.
Aos poucos sua mente começa a clarear e ele se lembra. Não foi o golpe que levou por trás na cabeça, este apenas lhe deixou tonto e o fez ser desarmado. Nem foi o momento em que deceparam sua mão direito, a dor lhe fez gritar até perder o fôlego, mas conseguiu se manter firme. Entretanto, quando usaram um pedaço de ferro quente para cauterizar a ferida, a dor foi insuportável e acabou desfalecendo.
A essa altura a urina já tinha acabado e apenas os gracejos e ofensas permaneciam. Olav conseguia ouvir o barulho de batalha a distância e ficou quieto tentando distinguir os gritos em meio ao confronto, mas seus captores não devem ter gostado de sua inanição, pois logo sentiu um chute explodir suas costelas. Acabou abrindo os olhos involuntariamente.
- Levante-se princesinha, não temos o dia todo.
O que está falando é um homem grande com braços musculosos e o típico cabelo loiro enrolado em uma grande trança dos Lobos Cinzentos, ele segurava uma grande espada de duas mãos apoiada no ombro. Ou outro era menor e tinha os cabelos curtos, provavelmente um mercenário contratado. Tinha um machado na mão e um escudo nas costas.
O maior deles pegou seu braço para fazer com que se levantasse, mas seja por descuido ou apenas por sadismos pegou o antebraço da mão decepada. A dor foi lancinante e fez Olav gritar pela segunda vez esse dia, e isso era algo que um guerreiro da tribo do Corvo Soturno não estava acostumado. A dor e a humilhação lhe deixaram furioso.
- Vamos que Ulfgar está esperando, ele quer mostrar para o líder dos Corvos Soturnos o que fez com o seu filhinho favorito.
O nome Ulfgar deixou-o totalmente desperto e Olav encontrou alguma coisa em que focar a sua fúria. Um chute em suas costas o fez cambalear para frente, mas Olav conseguiu se manter em pé e começar a andar. Sentiu algo roçando a sua cintura e olhou para baixo. Viu que os idiotas deixaram as duas machadinhas que levava presa na cintura. Nem sequer prenderam suas mãos, achavam que estava indefeso sem o sua mão da espada.
O filho do líder dos Corvos Soturnos é conhecido na sua tribo como Olav Dois Ventos por sua habilidade de lutar com suas duas machadinhas, uma em cada mão. Começou a lutar o machado de duas mãos por insistência do pai após a morte de seu irmão mais velho. Ele dizia que o machado era a arma sagrada de sua tribo e Olav passou a empunhá-la, apesar de deixá-lo mais lento.
Após alguns passos fingiu tropeçar e cair de joelhos no chão, apoiado na mão esquerda. Conforme esperado, um dos homens veio e lhe pegou pelo braço direito. A dor lhe fez gritar, mas aquilo também lhe enfurecia, o que era bom. Com um movimento rápido, se levantou enquanto sacava uma das machadinhas da cintura, usou o impulso para ganhar velocidade e cravar a machadinha na cabeça do inimigo. Infelizmente, o homem acertado foi o menor e ainda havia o grandalhão para matar.
Ao ver a cena, o grandalhão gritou um xingamento e avançou preparando a sua espada. Olav não conseguiu arrancar a machadinha da cabeça do cadáver e esperou até o inimigo chegar mais perto, quando arremessou o corpo na sua direção. O tempo ganho com essa manobra foi mínimo, pois o Lobo Cinzento precisou de apenas um chute para afastar o corpo, mas foi suficiente para Olav sacar a outra machadinha.
Além de o oponente ser grande, sua espada de duas mãos lhe proporcionava um alcance gigantesco, o que praticamente inviabilizava ser combatido com uma machadinha. No entanto, Olav estava acostumado a lutar contra esse tipo de adversário e se sentia confortável com essa desvantagem.
O Lobo Cinzento devia medir aproximadamente um metro e noventa de altura, o que era quase a mesma altura de Olav, mas era bem mais pesado do que o Corvo Soturno. Seus braços musculosos tornava a grande espada em um instrumento letal, além disso, era mais rápido do que se esperava para alguém de sua estatura. Avançou rapidamente golpeando com um arco horizontal, fazendo Olav saltar para traz para evitar ser atingindo.
Olav não teve tempo para pensar, pois o grandalhão continuou a atacar ininterruptamente, golpeando pela direita, usando o impulso para fazer a espada subir em um golpe traiçoeiro e finalizando sua sequência com um golpe para baixo, colocando tanta força que chegou a pular. O Corvo Soturno teve que saltar para o lado, dar um passo para traz e mergulhar para frente para evitar os golpes.
O oponente não queria deixar Olav pensar e voltou a golpear usando a mesma sequência de golpes. Dessa vez ele estava preparado para o ataque e quando a espada desceu, o Corvo Soturno esquivou para a direita firmando seu pé esquerdo no chão. No segundo necessário para o Lobo Cinzento erguer a espada, Olav arremessou a machadinha que rodopiou pelo ar e foi se alojar no meio do rosto dos olhos azuis do grandalhão repartindo o seu nariz em dois.
O urro foi selvagem e a espada foi arremessada para o alto enquanto as mãos do Lobo Cinzento tentavam tirar a machadinha do rosto. Depois de alguns segundos ele conseguiu, mas ao se virar para procurar Olav, um punho veio de encontro ao seu rosto lhe mandando para o chão.
O Corvo Soturno recuperou sua outra machadinha e avançou na direção do grandalhão. Ele pensava em deixar o Lobo Cinzento recuperar a espada e continuar o duelo, mas lembrou que ainda tinha que confrontar Ulfgar e precisava guardar suas forças. Um golpe certeiro na nuca do oponente que tentava se levantar terminou com o combate.
Olav guardou a machadinha na cintura e pegou a outra da mão do Lobo Cinzento. Viu o escudo nas costas do mercenário e achou que seria uma boa ideia dar alguma utilidade ao seu braço direito. Atou o escudo no antebraço. Apertar as fivelas fez uma dor lancinante percorrer seu braço fazendo seu coto arder. Isso era bom, a dor lhe deixava enfurecido e ele ainda precisava lidar com Ulfgar.
A neve começou a cair e deixar a o planalto todo branco. Ele sentia seu cabelo ficar úmido e passou a mão sobre eles para tentar mantê-los afastado de seus olhos. Os flocos iam caindo e se acumulando sob os corpos jazendo dilacerados no solo. O combate já tinha deixado o planalto e avançado para o meio da tribo dos Corvos Soturnos. Os Lobos Cinzentos estavam fazendo um grande estrago em sua tribo, mas para o orgulho de Olav, seus companheiros estavam vendendo caro a derrota.
O campo de batalha estava deserto, exceto pelos cadáveres dos guerreiros das duas tribos. Por todos os lados via seus companheiros, os melhores guerreiros da tribo, e os que restaram com seu pai não seriam suficientes para impedir a extinção dos Corvos Soturnos, esperava apenas que o mesmo destino caísse sobre os Lobos Cinzentos. Se dependesse de seu ódio, isso estava prestes a acontecer.
Avançava rapidamente pelo campo, primeiro em marcha e logo correndo quando avistou a primeira tenda em chamas. Mas um movimento no lado direito chamou sua atenção, e viu que um dos moribundos se arrastava com dificuldade. Seu primeiro pensamento foi deixa-lo para morrer, mas algum de seus sentidos lhe alertou para ver de quem se tratava e se aproximou. Mesmo o sujeito estando de costas, percebeu de imediato que se tratava de um mercenário.
Diminuiu o passo e começou a se aproximar com cautela. Olhou o homem rastejando e notou que ele usava um corselete tingido de vermelho, e recordou de ver armaduras semelhantes em diversos locais do campo de batalha. De um tempo para cá, não era difícil ver grupos de mercenários no campo de batalha, remanescentes de tribos extintas que sobreviviam vendendo suas armas as tribos em guerra, o que era um bom negócio, pois as tribos de Ravengard estavam sempre em guerra. No entanto nunca havia visto tamanho volume de mercenários reunidos. Bem que tinha estranhado o grande número de Lobos Cinzentos relatado pelos batedores.
Já estava em cima do homem, que deve tê-lo notado uma vez que se virou de barriga para cima. O peito do mercenário estava rasgado com um X vermelho, a ferida estava escurecendo rápido e exalava um cheiro ruim, o que significava que o homem estava condenado e dificilmente ofereceria perigo, mas talvez tivesse respostas.
- Se quer me matar, seja rápido cão – balbuciou o homem com dificuldade, finalizando a frase com uma tentativa de cusparada, mas apenas uma baba vermelha saiu de sua boca.
Olav ajoelhou em cima do saco do homem arrancando um grito abafado e mais baba com sangue.
- Eu posso acabar com a sua dor ou prolonga-la, cabe a você escolher o que prefere – respondeu-lhe aliviando a pressão do joelho.
O rosto do homem deixou transparecer apenas desprezo. Morrer gritando e pedindo misericórdia era considerado como a condenação de um homem a danação, os homens das tribos acreditavam que apenas aqueles que morriam com bravura seriam recebidos nos salões dos ancestrais, e os mercenários um dia foram homens das tribos. A reação do mercenário deixou Olav aturdido… alguma coisa estava errada ali.
Tornou a pressionar o joelho e agarrou os cabelos do homem. Colocou seu rosto de frente ao moribundo, examinando com cuidado aquele rosto barbado, com pelos loiros e de olhos verdes. Visto no campo de batalha, o homem parecia um homem das tribos, mas agora que o via mais de perto, Olav conseguia perceber alguns detalhes estarrecedores. A pele do mercenário estava marcada pelo frio, que ainda não era tão intenso nesse final de outono, e sua barba tinha sido aparada com alguma lâmina no pescoço, algo impensado para um homem das tribos.
- De onde você é? – perguntou Olav aos berros enquanto puxava violentamente os cabelos do mercenário com a sua mão única mão e pressionava o joelho. Esperou o grito de dor cessar antes de aliviar seu aperto e ouvir a resposta do mercenário. Quando recebeu apenas um olhar de desafio em retorno, se enfureceu, colocou seu escudo sobre a ferida no peito do moribundo e apertou. Um líquido escuro e espesso escorreu pelas laterais do escudo enquanto o uivo de dor subia pela garganta vermelha do mercenário. Olav temeu que pudesse ter ido longe demais e perdido o homem, mas o olhar de medo que o homem agora exibia lhe deixou mais confiante em obter respostas.
- De onde você é? – repetiu a pergunta.
- Sou um mercenário… – o homem começou a responder balbuciando.
- Nem tente, cão… – ameaçou Olav enquanto largava os cabelos do mercenário e sacava uma de suas machadinhas – … ou eu abro mais um pouco as suas feridas.
- Sou um mercenário – gritou o homem. – Sou um mercenário do império. – tossiu e cuspiu mais um pouco de sangue – Eu e meus companheiros fomos contratados para vir às terras dos bárbaros e ajudar as guerras das tribos.
- E por que sulistas iam querer vir para as terras do inverno se envolver em guerras que não lhe diz respeito? – perguntou Olav achando aquela explicação um tanto quanto estarrecedora, mas estranhamente verdadeira. Soltou a arma e segurou a cabeça do moribundo uma vez mais para ajudar as palavras a saírem com mais facilidade.
- Enquanto vocês ficam se matando uns aos outros… – mais um pouco de tosse e um suspiro – … nós do império não precisamos nos preocupar com vocês.
A resposta pegou Olav desprevenido e o deixou desnorteado, largando a cabeça do mercenário abruptamente a fazendo bater contra o chão. Ele se levantou e ficou olhando para as chamas que subiam da sua tribo, indiferente as lamúrias que o moribundo deixava escapar.
- Só meu diga mais uma coisa – ajoelhou-se repentinamente ao lado do mercenário. – Ulfgar sabia disso quando os contratou?
- Não… que… eu… saiba… – balbuciou as palavras tão baixo que Olav teve que ir se abaixando cada vez mais para ouvi-las.
A fúria do Corvo Soturno era tamanha que ele pegou a machadinha e com apenas um golpe decepou a cabeça do moribundo. Eram muitas informações para sua cabeça. Em algum lugar distante, um imperador ficava fomentando a guerra entre os povos das tribos para proteger seu reino. Seus familiares e amigos haviam morrido por causa dos caprichos desses homens inescrupulosos.
Olav se levantou e voltou a correr para sua tribo. Se era ignorante ou não, o que Ulfgar fez não tinha perdão. Ele iria matar o Lobo Cinzento depois ia atrás desse imperador.

Por Rafael Silva

Convidado
Convidado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 :: Home. :: Flood. :: Fanfics.

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum